86º DRUNH, ABATXEGU / OS LOCAIS

Ao final da tarde a casa liboririntática onde eu morava e o seus xyddrars pareciam visões secretas. Visões próximas da minha alma. Sempre achei mesmo que a alma queria ir além do que ela podia ver.
- As ruas de Nesemix não se abreviavam com facilidade. Eudaips fez chover estrelas. A noite passou veloz. -pensei.
A liturgia liboririntática do culto aos sóis não levou tempo para se realizar.
Meus pensamentos e sentimentos renasciam esperançosos a cada drunh que se iniciava. O coração vibrava. Era perseverante em suas buscas. O caminho até a rua Hesb se findou nos sóis do abatxegu.
A casa se irrompeu no horizonte barulhento das minhas celebrações. Alisei as paredes, as flores venturosas que a adornavam. A claridade se mostrava firme. Ao entrar na sala vi a luz de Liboririm livrar o chão da escuridão. Veio-me a visão metálica do aepoclec de Cybor Tred. O tempo se mexeu. Transferiu-me de um lugar para o outro. Abaixei-me. Praticamente deitado no chão soprei as tênues partículas do aepoclec. Foi assim que a minha alma e inteligência sentiram e acreditaram nas palavras que Cybor Tred me falara naquele drunh que antecedeu a minha ida à Gamojunx Kronskor.
O chão se formava nas múltiplas vastidões. Levantei-me. Ao olhar pelas janelas enxerguei uma Nesemix idêntica às agitações. Costumeiro comportamento. Habitual necessidade de me fixar nas perspectivas de quem chegará e o que chegará.
A casa da rua Hesb girou. Fez rodopios. Vozes interiores pediram para que eu retornasse ao chão e nele me deitasse. Assim o fiz.
O teto se transformou em cor azul e em estrada. Uma rodovia por onde transitavam muitos veículos liboririntáticos. O azul atravessou de um lado ao outro o restante da casa. E ela, a casa, desapareceu.
Antes que eu fechasse os olhos com o intuito de consultar os pensamentos me vi dentro de um owhaluvost que percorria a estrada surgida. O owhaluvost estava lotado. Jovens liboririntáqueos ocupavam as poltronas. Eu apareci sentado em uma delas. Ao meu lado um passageiro de cabelos enormes. Não levou tempo e o cabeludo liboririntáqueo atraiu-me deveras para si.
ERTIZ DINBLIGE, O PEEGNAL
- Purificado duoef, estamos viajando já a um bom tempo. O owhaluvost vai dar uma paradinha daqui a pouco. Precisamos esticar as pernas, não é mesmo? Sou Ertiz Dinblige, o peegnal.
Tomou-me repentina afeição e camaradagem pelo liboririntáqueo moço que se dizia ser um peegnal. Da parte dele senti o que começara a existir em pouco tempo: companheirismo.
Uma pausa na viagem. Realmente o owhaluvost parou. Estacionou à frente de um bys-har extraordinário por seu enorme tamanho e possibilidades alimentícias. Os jovens passageiros saíram do veículo e entraram no bys-har sem atropelos ou correrias. Sempre me mantendo perto de Ertiz Dinblige me alimentei e saciei a sede. O tempo não brinca em serviço.
- Depurado duoef, já retornamos ao owhaluvost a um bom tempo. É preciso que eu vos diga que a viagem para o duoef terminará quando o duoef desejar que ela se finde. Afinal nós todos que estamos aqui dentro do owhaluvost não precisamos chegar a nenhum local que não se chame destino. Os locais parecem com almas. São às vezes incompreendidos, vivem sem explicações e são quase nada observados. Eu, duoef, quando me chegar o querer de sair deste owhaluvost regressarei lento e veloz à minha peeg. Somos almas! Todos os passageiros que o duoef está a enxergar são almas de pouca idade.
Ertiz Dinblige riu em demasia. Um riso estendido que me contaminou e a todos os passageiros. Não aprisionei o sentimento de alegria que o peegnal nos transmitia.
Quando os perdidos de risos se aquietaram todos os konasts da vida passaram na minha mente feito uma inspiração. Uma energia que me fazia escrever poemas. Ao cair da tarde declamei alguns desses poemas para preencher, e eu reconheci, a viagem que se desfazia em laços.
- Ertiz Dinblige, não esperarei a fixação das estrelas no azul escuro do céu. Desejo sair do owhaluvost agora. Seja lá onde estivermos. Mesmo que estejamos neste momento na região mais pantanosa da morada das almas quero descer.
A arte me fazia ficar embriagado e lúcido. Colocava cores nas contemplações, nas paisagens liboririntáticas. os sóis deixavam brilhos nas janelas do owhaluvost. Num momento vi crianças de Liboririm dançando com crianças terráqueas. Súbito falei ao peegnal que iria escrever um poema tão extenso que o estenderia sobre os corpos dos rios Ojand e Graepia.
As estrelas prateadas e douradas despontaram no firmamento. Bailaram à disposição do local que me chamava de destino.
- Limpado duoef, se desejas de verdade sair do owhaluvost a vossa vontade é a deusa da vossa ação. Confesso ao duoef que o meu momento de sair do owhaluvost está tão próximo que sinto o cheiro das cores da minha peeg. O que vós fareis?
O veículo girou. Abriu-se em rodopios. Estiquei o dedo indicador da minha mão direita em direção das portas abertas do owhaluvost. Vozes interiores pediram para que eu me deitasse em algum local.
Assim o fiz.